Saturday, February 25, 2006

Nomear e Descrever (cont.)

3. Geach e Evans, obviamente, não negam que Frege não identificou o sentido (Sinn) de um nome ao sentido de um a descrição com a mesma referência (Bedeutung) -- de fato, poucos negariam isso. Como Frege defendeu, expressões com o mesmo sentido devem ser intersubstituíveis salva veritate. Entretanto, ele insistiu que expressões idênticas em sua referência costumeira geralmente não são intersubstituíveis salva veritate, e.g., em contextos de atribuição de atitudes proposicionais, o que provaria que tais expressões diferem no seu sentido. Além disso, uma lição que se pode extrair facilmente de “Über Sinn und Bedeutung” (1892), locus classicus da distinção fregeana, é que qualquer frase de identidade que não seja da pobreza informativa e cognitiva de uma frase de identidade cuja estrutura podemos representar como ‘a=a’, contêm nomes que são idênticos na sua referência e diferentes no seu sentido. (Cf. Frege, G. “On Sense and Meaning”, in: Mcguiness, B. (ed.) Gottlob Frege –Collected Papers on Mathematical, Logic, and Philosophy, Oxford: Basil Blackwell, 1984, pp.157-177. A distinção fregeana entre sentido e referência remonta pelo menos a 1891, onde aparece no ensaio “Function and Concept” (op.cit., pp.137-156). Como lembra W.W. Taschek, esse puzzle é apenas um caso de algo mais geral que intrigava Frege. ‘Como podem duas frases serem distintas em significância cognitiva quando ambas exigem, a fim de serem verdadeiras, que precisamente o mesmo objeto ou objetos caiam sobre precisamente o mesmo conceito ou relação?’ Cf. “Content, Character, and Cognitive Significance”, Philosophical Studies , 52 (1987): 161-189.)
Geach e Evans (e Neale) também não negam que o aprofundamento da distinção entre nomes e descrições nas mãos de Russell parece adquirir contornos mais profundos com o desenvolvimento da sua teoria das descrições, apresentada pela primeira vez ao público em “On Denoting”. (Cf. Russell, B. “On Denoting”, Mind , v. XIV, n.4 (1905):479-493; Urquhart, A. (ed.), The Collected Papers of Bertrand Russell, v.4 – Foundations of Logic 1903-05, London: Routledge and Kegan Paul, 1994, pp.415-427.)
A alegação de Saul Kripke, em Naming and Necessity, que para Frege e Russell ‘realmente um nome próprio, propriamente usado, era simplesmente uma descrição definida abreviada’ , e que uma 'descrição dá o sentido do nome' (p.127), parece, pelo menos a primeira vista, não captar o exato sentido das distinções feitas por eles, em particular, parece não captar a radicalidade pretendida por Russell. (Cf. Kripke, S., Naming and Necessity, Cambridge: Harvard University Press, 1980.) Estaria Kripke tão enganado?

Wednesday, February 22, 2006

Nomear e Descrever


'...thouhg analysis give the truth, and nothing but truth, yet it can never gives the whole truth.'
(Russell, The Principles of Mathematics, #138, p.41.)

'...if there be things at all upon the earth there is truth.'
(W. Whitman, Leaves of Grass. )

'El mundo era tan reciente, que muchas cosas careciam de nombre, y para mencionarlas había que señalarlas com el dedo.'
(G. G. Marquez, Cien Años de Soledad. )


1. Poucos discordariam que nomeamos e descrevemos objetos. Menos consenso há em torno de como interpretar nossas afirmações sobre os objetos que nomeamos e descrevemos, e em torno de como agrupar as expressões envolvidas em nossas afirmações.
P.T. Geach, em "History of Corruptions of Logic" (in: Logic Matters, Oxford: Basil Blackwell, 1972), lembra que certa vez ouviu Wittgenstein dizer 'que todas as diferenças lógicas são grandes diferenças' (p.48). O que segue é o exame de uma dessas diferenças (notoriamente importante para história contada por Geach) : a diferença entre nomes e descrições. P.ex., que diferença tão grande há entre o que dizemos, quando dizemos que

(1) Russell foi pacifista ,

e o que dizemos, quando dizemos que

(2) O inventor da teoria das descrições definidas foi pacifista ,

e em que medida contribui para isso as diferenças entre "Russell" e "o inventor da teoria das descrições definidas"? Afinal, as duas expressões, como termos singulares que parecem, não estariam funcionando como expressões referenciais e, talvez, para o mesmo objeto? Entretanto, embora seja verdade -- em todo caso, estou convencido que é verdade -- que

(3) Russell foi o inventor da teoria das descrições definidas ,

não poderia ser verdade que Russell foi pacifista e falso que o inventor da teoria das descrições definidas foi pacifista? O inventor da teoria das descrições definidas não poderia ser Frege ou Peano, que talvez não fossem pacifistas? (Para tornar um pouco mais plausível meu exemplo, lembraria que um respeitável comentador da obra lógica de Russell, F. A. Rodriguez-Consuegra, num artigo intitulado "Frege, Peano and Russell on Descriptions: A Comparison" (in: Russell: The Journal of Bertrand Russell Studies, 20 (2000): 5-25) defende que os elementos essenciais da teoria das descrições definidas de Russell já estão presentes em alguns trabalhos de Frege e de Peano. )
Parece claro que as duas frases, (1) e (2), não possuem o mesmo valor de verdade pelo menos com respeito a algumas circunstâncias possíveis. Segue-se daí que "Russell" e "o inventor da teoria das descrições definidas" possuam diferentes conteúdos semânticos e não estejam sendo usadas como expressões referenciais?

2. Nesse mesmo artigo, Geach destaca dois lógicos, entre outros, que teriam apoiado parte dos seus trabalhos na demarcação de duas classes de expressões, quais sejam, Frege e Russell. Para ambos, um dos problemas centrais é que a avaliação de certos argumentos depende de um exame das estruturas internas das proposições que os constituem; para ambos, assim, trata-se de lançar mão de recursos que permitam que essas estruturas sejam claramente exibidas. Frege opôs nomes e expressões predicativas; Russell aprofundou a oposição. Geach diz:

'Russell reenfatizou esse ponto, e adicionou a negação de que expressões complexas significativas possam desempenhar o papel lógico de nomear; Frege ainda permitiu nomes complexos.' (op.cit., p.59)

G.Evans, no seu influente The Varieties of Reference ( Oxford: Clarendon Press, 1982), chama atenção para o mesmo ponto:

'...foi [Russell] o primeiro a desafiar a legitimidade da classificação tradicional [das expressões referenciais]' (p.3)

Mais recentemente, digno de menção é o destaque, dado por S. Neale, para esse que é um dos fundamentos do trabalho lógico-semântico de Russell. Em Descriptions (Cambridege:, Mass.: MIT Press, 1990), Neale diz:

'...Russell foi o primeiro a objetar que se concebesse essa intuitiva classe de sintagmas nominais singulares ( singular noun phrases ) como uma categoria semântica unificada. '(p.5)

O meu percurso principal será explorar as origens e os argumentos de Russell para proceder a uma demarcação tão radical e com impacto não menos radical na história da chamada filosofia analítica.

Thursday, February 16, 2006



P. F. Strawson

'Neither Aristotelian nor Russellian rules give the exact logic of any expression of ordinary language; for ordinary language has no exact logic.'

Assim Strawson finaliza um dos mais importantes escritos da filosofia do séc.xx --não, não é exagero --, provocativamente intitulado "On Referring" (Mind, 59 (1950):320-44). O artigo foi publicado no mesmo periódico que Russell, 45 anos antes, havia publicado "On Denoting" (Mind, 14 (1905):479-93). O que Russell publicara ali era nada mais nada menos do que sua teoria das descrições definidas, que se tornaria tão célebre a ponto de um dos grandes lógicos e filósofos da década de 20, Frank Ramsey, chamá-la 'aquele paradigma de filosofia'. Os alvos de Russell eram sobretudo as teorias que tratavam descrições definidas como termos singulares: a teoria de Frege, a teoria de Meinong, e uma das suas antigas teorias apresentadas em The Principles of Mathematics (1903). A teoria das descrições definidas também era apresentada como um dos pilares, e um dos grandes trunfos, do ambicioso programa de redução da matemática à lógica. Pois bem, como um 'paradigma da filosofia', assim reinou quase inconteste a teoria das descrições definidas de Russell. A publicação de "On Referring" pode não ter decretado o fim da teoria de Russell, mas certamente abalou o seu reinado.

O título do artigo já marca o afastamento de Strawson da posição russelliana: para Strawson são os usários da linguagem que referem a um indivíduo, evento ou processo, num dado tempo e numa dada ocasião, e não expressões consideradas isolada e abstratamente. ( Denoting fora chamada por Russell, em The Principles of Mathematics, uma relação lógica entre um conceito e um "objeto"; em "On Denoting", denoting é uma relação entre uma descrição e um "objeto" --quando há esse "objeto".) Diz Strawson:

'Expressions used in the uniquely referring way are never either logically proper names or descriptions, if what is meant by calling "descriptions" is that are to be analysed in accordance with the model provided by Russell's Theory of Descriptions. ' (p.324)

No artigo podemos encontrar muito claramente interligadas três objeções à análise de Russell:

(i) A análise de Russell não dá o peso devido aos diferentes usos de descrições definidas --objeção que para alguns antecipa a que Keith Donnellan faria em "Reference and Definite Descriptions" (Philosophical Review 75 (1966):281-304) , que uma descrição pode ser usada referencialmente ou atributivamente . A famosa frase, "o rei da França é careca", que para Russell é falsa, para Strawson não expressa algo verdadeiro ou falso -- embora, em certas ocasiões, bem pode ter expresso. (Perguntei certa vez a uma amiga se a frase "o rei da França é careca" é verdadeira ou falsa. A resposta dela: "A França não é uma monarquia!".)

(ii) A análise de Russell fornece como uma condição de verdade para uma frase contendo uma descrição -- num palavreado mais ou menos como o de Russell, o que a frase implica e o que implica a frase -- uma frase existencial que para Russell é falsa, o que faz da frase contendo a descrição uma frase igualmente falsa. Para Strawson, o que afirmamos quando afirmamos que o rei da França é careca não implica que exista o rei da França, antes pressupõe que exista o rei da França. (No seu Introduction to Logical Theory (London, New York: Methuen, 1952) Strawson definira assim a relação de pressuposição entre certas afirmações: S pressupõe S' se e somente se a verdade de S' é uma condição necessária da verdade ou falsidade de S. (p.175) )

(iii) A análise de Russell não prevê que, em certos usos, descrições são incompletas. Se consideramos a frase "a mesa está cheia de livros" , parece que pela análise de Russell estamos comprometidos com a existência de uma única mesa -- nesse mundo todo!

Claro, nós russellianos temos algumas saídas. Entretanto, não fosse por Strawson, entre outros, estaríamos entediados. (Eu tratarei com mais rigor, das objeções de Strawson e das réplicas, noutra oportunidade.) Diria mais: temos muito ainda que aprender com Strawson, sobre esses e outros temas filosóficos. Num artigo recente, "What have we Learned from Philosophy in the Twentieth Century?" ( in: Dahlstrom, D. (ed.), The Proceedings of the Twentieth World Congress of Philosophy, V.8 -- Contemporary Philosophy , Bowling Green State Univ. Philosophy, 2000) , ele disse:

'I must add, to balance that caution against accepting the final authority, on any matter, of any of the great dead philosophers of the past...: that the thoughts of some of those great dead thinkers may still have a unique weight and sustenance for us; that the great dead may speak to us more powerfully and suggestively than even the most gifted of our own contemporaries.' (p.270)

Tuesday, February 14, 2006


Uma amiga, que não tem obrigação nenhuma de saber, perguntou qual o motivo para dar um "nome" como esse -- 'o rei da França' -- a um blog. Claro, ela via um nexo entre o "nome" e as "profundas" -- disse ela com certa ironia -- questões que mencionei. Ela queria saber a origem do "nome"... A descrição definida, 'o rei da França', respondi enfatizando e feliz da vida, foi usada num famoso exemplo de Russell. A frase

(1) O rei da França é careca ,

é verdadeira ou falsa, queria saber Russell...'Espera, minha amiga interrompeu, a expressão "o rei da França" não é o nome do teu blog?' A minha ênfase deu nisso...Eu queria começar delimitando um pouco meu terreno, para não deixar passar a impressão que trataria desses assuntos tomando como ponto de partida os pré-socrátricos. Agora, primeiro terei que tentar explicar a diferença que vejo entre nomes e descrições. Querida amiga...

Monday, February 13, 2006

Bertrand Russell


Eis um dos meus heróis: o velho Russell. Nesse blog, não pretendo deixar ele em paz. (O que, a propósito, não o deixaria nem mais nem menos preocupado. A exemplo de Julien Sorel, 'nesse indivíduo singular, quase todos os dias eram de tempestade'.)

A sua teoria das descrições será aqui tratada como parâmetro contra o qual outras teorias das descrições -- ou simplesmente algumas teses a respeito de descrições -- serão avaliadas.

Saturday, February 11, 2006


Na corrida: as traduções das passagens de Alice não são minhas, mas do Sebastião Uchoa Leite. Numa edição legal, que traz também o maravilhoso "O que a tartaruga disse a Aquiles" , que continua a despertar nossa curiosidade...

Eis a referência: Carroll, L. , Aventuras de Alice , São Paulo: Summus Editorial, 1980.

O maravilhoso Gato Cheshire aí em cima, com aquele sorrizinho, é de Anne Bachelier.

Numa famosa passagem de Alice através do espelho -- e o que Alice encontrou lá , o Rei pergunta ao Mensageiro: 'Por quem você passou pela estrada?' A resposta é imediata: 'Ninguém.' Na seqüência, ficamos desconsertados: 'Certo, certo -- disse o Rei.--Esta jovem aqui também o viu. Sem dúvida Ninguém anda mais devagar do que você. --Faço o que posso --disse o Mensageiro amuado. -- Estou certo de que ninguém anda mais depressa do que eu.' Essa situação paradoxal -- já explorada por Homero na não menos famosa passagem do ardil de Ulisses para se livrar do Ciclope -- é uma das motivações para esse blog.
Uma outra motivação também encontro animada em Lewis Carroll. No encontro de Alice com Humpty Dumpty, ele pergunta o nome da Alice: 'Meu nome é Alice, mas...--É um nome bastante idiota!...Que significa?--Deve um nome significar alguma coisa? --perguntou Alice cheia de dúvida.' A resposta convicta de Humpty Dumpty, que um nome deve significar algo, terá um lugar nesse blog... mas numa posição de menor destaque do que a perplexidade de Alice, que a exemplo da minha primeira motivação, é bastante antiga (remonta pelo menos a um diálogo de Platão, o Crátilo ).

Examinarei várias respostas para essas duas questões, que chamarei, respectivamente, o problema da inexistência intencional (como a tempos é chamado) e o problema do significado dos nomes. O leitor já deve estar percebendo que elas não poderão ser examinadas isoladamente: há um conjunto tão grande de outras questões a elas ligadas, que um dos meus principais propósitos será tentar formulá-las com alguma clareza. De fato, como já sugeri, essa é a parte que mais desperta meu interessa, as perplexidades, antes que as respostas. Nesse blog, salientaria, esperteza como a de Humpty Dumpty -- e esperteza como de quem sustenta o contrário -- é a que mais será desafiada.

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