
"O que não tem propriedades, existe?"
Fui pego de surpresa pela seguinte pergunta do rapaz que cuida dos cães abandonados aqui da minha rua (pegou um, esses dias, estropiado): "O que não tem propriedades, existe?" Quer dizer, quando ele me perguntou achei um pouco estranho, mas em seguida passei a responder mais ou menos nessas linhas.
Segundo Russell -- e quase todo o mundo -- o que existe tem propriedades. "Prova!", desafiou-me... Consideremos a proposição *14.18, destacada e demonstrada (como veremos em seguida) por Russell (e Whitehead) como uma das mais importantes da seção *14 do seu também épico Principia Mathematica (Whitehead, A.N. and Russell, B. Principia Mathematica, Cambridge: University Press, 1910). Apresento *14.18 numa forma equivalente e numa notação ligeiramente modificada (e adaptada ao meio) , onde "ix" é o operador iota (i.e., 'ix' é um operador que cria um termo -- ou melhor, um pseudo-termo -- a partir de fórmulas), "-->" o símbolo da implicação material e "&" o símbolo da conjunção. (Apenas para esclarecer que "E!(ix)(Fx)" é o definiendum de *14.o2, i.e., é o que na análise russelliana de proposições expressas por frases contendo descrições definidas corresponde a abreviação das condições de existência e unicidade.)
*14.18 - (E!(ix)(Fx) & (x) (Gx )) --> G(ix)(Fx)
Antes de apresentar sua demonstração me deterei rapidamente nos comentários de Russell (e Whitehead) em torno dessa proposição. *14.18 afirmaria que se (ix)(Fx) existe (p.ex., se o presidente do Brasil existe ), então ele tem propriedades, '...tem qualquer propriedade que pertence a qualquer coisa' (p.174), diz Russell (e Whitehead). Por outro lado, se (ix)(Fx) não existe, então ele não tem propriedades: ‘...por exemplo, o rei da França não tem a propriedade de ser calvo ou de não ser calvo’(p.174). Além disso, Russell (e Whitehead ) diz (em): ‘...desde que (ix)(fx) exista ele tem (formalmente falando) todas as propriedades lógicas dos símbolos que diretamente representam objetos. Por conseguinte, quando (ix)(fx) existe, o fato que ele é uma símbolo incompleto torna-se irrelevante para o valor de verdade das proposições em que ele ocorre.’(p.180) (Aqui a gente deve culpar Whitehead, obviamente, por não ter advertido Russell por ser tão relapso, mais essa vez, com a distinção entre uso e menção. A culpa, insisto, é do Whitehead.)
Só para "implicar", resolvi provar a contrapositiva da resposta que ele queria. CQD... Ele não ficou muito convencido. Para mais uma surpresa minha, ele perguntou: "E os meinongianos, o que diriam?" Pobre daquele cachorrinho ali...











