Monday, June 19, 2006

Outros animais

Lá do Animot, do César, uma jóia:

'Da diferença entre os homens e os animais

[O que é um mito?] Se você interrogar um índio americano, seriam muitas as chances de que a resposta fosse esta: uma história do tempo em que os homens e os animais ainda não eram diferentes. Porque, apesar das nuvens de tinta projetadas pela tradição judaico-cristã para mascará-la, nenhuma situação parece mais trágica, mais ofensiva ao coração e ao espírito do que a situação de uma humanidade que coexiste com outras espécies vivas sobre uma terra cuja posse partilham, e com as quais não podem comunicar-se.-- Claude Lévi-Strauss '

Wednesday, June 07, 2006



Ocorrência Primária e Ocorrência Secundária de Descrições Definidas

Com a invenção da teoria das descrições definidas, como todos sabem, Russell passa a distinguir radicalmente expressões que representam diretamente o que representam – na terminologia de The Principles of Mathematics, ‘coisas’ e ‘conceitos’ (e na que preferirá depois, ‘particulares’ e ‘universais’)— e ‘símbolos incompletos’, isto é, símbolos que não possuem ‘significado isoladamente’, tais como expressões denotativas, em particular, descrições definidas. A partir daí, descrições definidas, como as demais expressões denotativas, serão tratadas por ele, sem hesitações, como expedientes de quantificação, e não meramente de denotação (e, tampouco, de referência direta); e as frases em que ocorram serão tratadas como expressões de proposições gerais, e não expressões de proposições russellianas.


Certamente, um dos resultados mais notáveis da teoria das descrições é o tratamento dispensado aos contextos de atitudes proposicionais. Apenas para que se tenha uma idéia, ele influenciaria Quine, no magistral “Quantifiers and Propositional Attitudes” (1956), com a sua distinção entre o nocional e o relacional; e ele influenciaria Kaplan, com o seu não menos magistral “Quantifying in” (1968-9).
Um dos mais famosos e animados exemplos de Russell, em “On Denoting”, envolve justamente tais contextos. O exemplo é seguinte. Alguém diz:


(1) Pensei que seu iate fosse maior do que ele é.

A ambigüidade de (1) poderia suscitar como réplica um “Não, meu iate não é maior do que ele é!”. A réplica interpretaria (1) como

(OS) Pensei que o tamanho do seu iate fosse maior do que o tamanho do seu iate.

Mas o que se disse foi algo como

(OP) O tamanho que pensei que tivesse seu iate é maior do que o tamanho que ele tem.

Quase-formalmente ( e “R” representando a relação maior que):

(OS’) [Pensei que] (o tamanho do seu iate) R (o tamanho do seu iate).

(OP’) [O tamanho que pensei que tivesse seu iate] (O tamanho que pensei que tivesse seu iate) R (o tamanho do seu iate).

A distinção entre ocorrência primária (OP) e ocorrência secundária (OS), adotada em “On Denoting” para dar conta de ambigüidades dessa espécie, surge, em “On Fundamentals” -- o manuscrito de junho de 1905, de onde emerge a teoria das descrições definidas --, como um desdobramento da distinção feita, em The Principles of Mathematics , entre a ocorrência de um conceito como termo da proposição e a ocorrência de um conceito como predicativo ou relacionante. (O argumento apresentado por Russell na seção 49 visa estabelecer que essa distinção não corresponde a uma distinção real entre elas, isto é, que é uma e a mesma entidade que ocorre como termo da proposição ou como conceito. Russell coloca, assim, no mesmo nível ontológico coisas e conceitos, e acaba por concluir que conceitos são tão substanciais quanto coisas.)

Mais ou menos como dirá Russell em “On Denoting” e em Principia Mathematica, uma descrição terá uma ocorrência primária ou uma ocorrência secundária, respectivamente, conforme um operador caia sob o seu escopo ou a descrição caia sob o escopo de um operador -- numa terminologia mais adotada: “o F” tem um escopo amplo (wide scope) em uma frase F quando seu escopo é F, e tem um escopo restrito (narrow scope) em F quando cai sob o escopo do principal operador de F. Num contexto extensional (e supondo que a descrição seja imprópria – como “o rei da França”), p.ex.,

(N) ~G(ix)(Fx) ,

pode-se marcar assim a distinção (lembremos que Russell, em *14.01 prefixou ‘[(ix)(Fx)]’ ao definiendum):

(OP) [(ix)(Fx)]~G(ix)(Fx) .

(OS) ~[(ix)(Fx)]G(ix)(Fx ).

Conforme as regra de *14, podemos analisá-las (usando a nossa notação desgraçada), respectivamente, como

(NI) (Ex)(Fx & (Vx)(Fy-->y=x) & ~Gx) .

(NE) ~(Ex)(Fx & (Vx)(Fy-->y=x) & Gx) .

As definições centrais de *14, isto é, *14.01 e *14.02, guiadas pelo princípio que ‘expressões denotativas nunca têm significado por si mesmas, mas...cada proposição, em cuja expressão verbal elas ocorrem, têm um significado’, fornecem, então, um padrão para eliminar descrições dos contextos em que é predicado algo sobre o que o sujeito gramatical descreve, e dos contextos em que é afirmada a existência do que é descrito pelo sujeito gramatical, em favor de uma representação perspícua da estrutura das proposições. Descrições definidas não contribuem para o significado das frases em que ocorrem com constituintes genuínos (seja com o objeto descrito ou com o que Russell denominou, em sua antiga teoria do significado, conceito denotativo). Na medida em que as distinções de escopo são feitas, evitam-se ambigüidades quanto a saber, p. ex., se o que está sendo negado é que um certo objeto não satisfaz uma certa função proposicional (i.e, a afirmação da cláusula representada por ‘~Gx’) ou que não existe (ou existe mais que um) objeto que satisfaz certa função proposicional (i.e, a afirmação da cláusula representada por ‘~(Ex)(Vx)(Fy<-->y=x)’).

Em “On Denoting” (como em “On Fundamentals”), quando introduz a distinção entre ocorrência primária e ocorrência secundária, de fato Russell fala da ordem em que uma descrição deve ser eliminada, conforme as regras depois formalmente estabelecidas em *14. A eliminação das descrições, em ambos os casos, além de tornar mais claro o que se disse, também deixaria claro que os significados (alternativamente, conceitos denotativos), supostamente associados às descrições, não têm qualquer status ontológico (é como se fossem eliminados com a eliminação das descrições). Claro, isso tudo não está livre de críticas, desde os primórdios...

Tuesday, June 06, 2006



Sobre o ‘Curioso Duplo’ Uso dos Conceitos e a Unidade da Proposição

The Principles of Mathematics é, sob muitos aspectos, um livro estranho. O livro contém dois apêndices. Num deles (Apêndice B), Russell apresenta o esboço de uma das soluções para o paradoxo chamado depois 'paradoxo de Russell'. O esboço da solução, em linhas muito gerais, envolve distinções de tipos, no nível mais básico, indivíduos e o que pode ser atribuído a esses indivíduos. Entretanto, em tensão pelo menos aparente com a necessidade de tais distinções, um dos princípios da lógica e da ontologia de Russell, em The Principles of Mathematics, pode ser formulado assim:

(P1) Todo termo é um sujeito lógico.

Esse princípio tem algumas conseqüências que Russell não deixou de extrair. Uma delas está expressa na seguinte passagem:

‘... em algumas proposições, há somente uma maneira [de analisá-las]: são as proposições sujeito-predicado, tais como “Sócrates é humano”. A proposição “ [humanidade] pertence a Sócrates”, que equivale a “Sócrates é humano”, é uma afirmação sobre [humanidade], mas é uma proposição distinta. Em “Sócrates é humano”, a noção expressa por ["humano"] ocorre de uma maneira diferente da maneira que ocorre quando é denominada [“humanidade”], a diferença consistindo em que nesse caso, mas não naquele, a proposição é sobre essa noção. Isso indica que [humanidade] é um conceito, não uma coisa . [...] Sócrates é uma coisa por que Sócrates não pode ocorrer senão como termo em uma proposição: Sócrates não é capaz daquele curioso duplo uso que está envolvido em [humano] e [humanidade].’[1]

Na seção 49, Russell apresenta um argumento em defesa de que existe uma diferença entre o papel semântico de uma expressão predicativa quando usada como tal — uma expressão como "F" — e o papel semântico da sua correspondente nominalização — uma expressão como "F-dade" -- embora o conceito como tal (as such) seja o mesmo que o conceito usado como termo (used as term). Com esse argumento Russell estabelece que uma expressão como "F" representa (expressa) a mesma entidade que uma expressão como "F-dade" representa (indica). (Obviamente, para Russell o argumento é válido para qualquer conceito representado por um substantivo abstrato derivado de um adjetivo ─ p. ex., “riqueza”, “sensatez” ─ cf. seção 46, p. 42.) Todavia, a concepção de Russell a respeito da natureza dos conceitos é uma das responsáveis por gerar um problema que ele enfrentará por muito tempo: o da natureza da proposição. Uma proposição, segundo Russell em The Principles of Mathematics, é essencialmente uma unidade constituída por termos (terms). Termos, os constituintes básicos em que as proposições podem ser exaustivamente analisadas, dividem-se em coisas e conceitos. Proposições não são entidades lingüísticas constituídas por palavras, exceto, diz Russell, quando forem ‘lingüísticas’— p. ex., a proposição que “Sócrates” tem oito letras [2]. Tampouco são mentais, ‘identificadas com cognições’[3]. Proposições ‘contêm as entidades indicadas (indicated) por palavras’[4]. Parte dos "créditos" por essa noção de proposição, Russell dava à Moore, que no artigo “The Nature of Judgment” (1898-9) diz que os constituintes proposicionais, os conceitos, são entidades não-mentais, imutáveis e causalmente inertes (pp.4-5). ( Cf. Baldwin, T., G.E. Moore: Selected Writings, London: Routledge, 1993. ) Uma das ocasiões em que Russell expôs mais claramente essa concepção de proposição foi em carta a Frege (12/12/1904):

‘Creio que a despeito de todas suas neves eternas Mont Blanc mesmo é uma parte componente do que efetivamente é afirmado na proposição “Mont Blanc tem mais de 4.000 metros de altura”. Não afirmamos o pensamento, pois esse é um assunto psicológico privado: afirmamos o objeto de pensamento, e esse é, penso, um certo complexo (uma proposição objetiva, pode-se dizer) em que Mont Blanc mesmo é uma parte constituinte.’[5]

Ao sustentar que uma proposição é uma unidade Russell acentua a diferença entre proposições e meras classes de termos. Ele distingue duas espécies de totalidades: agregados (agregates) e unidades. Agregados podem ser identificados com classes e são especificados por suas partes. Unidades, por sua vez,‘... contêm relações, ou o que podemos chamar predicados, que não ocorrem simplesmente como termos ... mas como relacionantes (as relating) ou qualificadores (qualifyng). Tais unidades são sempre proposições. Essas não são completamente especificadas quando suas partes são todas conhecidas.’[6]
Para Russell, o problema é o seguinte—o chamado 'problema da unidade da proposição'. Se uma proposição está constituida exclusivamente pelos termos que a constituem, como é possível que a proposição não seja uma mera classe dos seus termos? Se a análise dos constituintes da proposição consiste em enumerá-los, então não podemos analisá-la em seus termos simples sem transformá-la em outra entidade. Russell trata, em The Principles of Mathematics, proposições contendo conceitos e proposições contendo coisas, indistintamente, como proposições que dependem, para manter sua unidade, dos seus constituintes e do nexo predicativo entre eles. A análise da proposição – pelo menos num certo sentido em que Russell entende que uma proposição possa ser analisada -- embora nos dê os constituintes da proposição, ao destruir o nexo entre eles destrói sua unidade. A face desse problema que me interessa, numa pergunta, é a seguinte: por que Russell acredita, em The Principles of Mathematics, que a diferença entre os papéis semânticos de expressões que representam conceitos não corresponde a nenhuma diferença ontológica dos termos? O exame do argumento da seção 49 pode lançar alguma luz nesse problema.O argumento apresentado na seção 49 envolve explicitamente uma das espécies de conceitos aceitos por Russell: os expressos por predicados. Russell afirma:

‘Pode-se pensar que uma distinção deve ser feita entre um conceito como tal (concept as such) e um conceito usado como termo (concept used as a term), e.g., entre pares como [é ] e [ser], [humano] e [humanidade], [um]em uma proposição como “Isto é um” e 1 em “1 é um número”. Mas dificuldades inextricáveis nos envolveriam se permitíssemos tal concepção.[...]. Pois suponha que [um] como adjetivo difere de 1 como termo. Nessa afirmação, [um] como adjetivo converteu-se em termo. Por conseguinte, ou se tornou 1, e então a suposição é autocontraditória, ou há alguma diferença entre [um] e 1 além do fato que o primeiro denota (denotes) um conceito, não um termo, enquanto o segundo denota (denotes) um conceito que é termo. Mas segundo essa última suposição, deve haver proposições sobre [um] como termo, e ainda deveremos afirmar proposições sobre [um] como adjetivo por contraste a [um] como termo; todavia, todas essas proposições devem ser falsas, pois uma proposição sobre [um] como adjetivo torna [um] o sujeito e, portanto, realmente é sobre [um] como termo. Em resumo, se houvesse quaisquer adjetivos que não pudessem ser convertidos em substantivos sem mudança de significado (meaning), todas as proposições sobre tais adjetivos (uma vez que necessariamente os converte em substantivos) seriam falsas, e então a proposição que todas essas proposições são falsas seria falsa, pois converte os adjetivos em substantivos. Mas esse estado de coisas é autocontraditório.’[7]

Russell extraía, imediatamente, a seguinte conclusão:

‘...se A nem sempre é sujeito, é exatamente e numericamente o mesmo A que não é sujeito em uma proposição e é sujeito em outra. Conseqüentemente, a teoria que há adjetivos ou atributos ou coisas ideais ... que são, de alguma maneira, menos substanciais, menos auto-subsistentes, menos idênticas a si mesmas do que substantivos genuínos, está completamente errada, e foi facilmente reduzida a uma contradição.’[8]

Para Russell, (P1) estava, assim, justificado. Mas o problema da unidade da proposição não estava bem resolvido. A sua solução dependia da distinção entre o conceito como tal e o conceito como termo, embora, dizia Russell ‘eu não saiba como dar uma explicação clara da natureza precisa da distinção’[9]. Outro ponto estranho do livro The Principles of Mathematics é que no apêndice em que discute as ‘doutrinas lógicas e aritméticas de Frege’ (Apêndice A) uma solução para essa dificuldade é vislumbrada, e apresentada nas seguintes palavras:

‘Frege reconhece a unidade da proposição: das partes de um conceito proposicional...nem todas podem ser completas, mas pelo menos uma deve ser incompleta (ungesättigt) ou predicativa; do contrário, as partes não se combinariam .’ [10]
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Notas
[1] Cf. seção 48, pp.44-45.
[2] Cf. seção 51, p.47.
[3] Cf. seção 51, p.51.
[4] Cf. seção 51, p.51.
[5] Cf. Gabriel,G. e outros (eds.), Gottlob Frege:Philosophical and Mathematical Correspondence (Chicago: The University of Chicago Press, 1980), p.169.
[6] Cf. seção 136, p.140.
[7] Cf. seção 49, pp.45-6.
[8] Cf. seção 49, p.46.
[9] Cf. seção 54, p.50.
[10] Cf. seção 481, p.507.



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