Monday, January 29, 2007


Linguagem Privada


Um texto, do blog do Jônadas (A Perspectiva da Primeira Pessoa). Vale muito a pena, também, dar uma lida nos comentários. O Alexandre lembrou bem do interessante artigo da Cora Diamond, "Does Bismarck Have a Beetle in His Box?The Private Argument in the Tractactus" - em que ela mostra a importância, para Wittgenstein, de algumas das principais idéias de Russell. (No blog do César (Externalismo ), em "Esquecer é preciso", num comentário ele diz o seguinte: ' Um Funes, para evocar o conto de Borges, não teria como aprender termos gerais, pois nada nunca contaria como o mesmo (como do mesmo tipo) para ele. O cão sob a escada visto 13h15 da tarde conta como uma coisa, o cão sob a escada visto 13h15 e lembrado 16h45 conta como outra, o cão sob escada visto 13h16 conta como uma terceira coisa etc. A linguagem de Funes só teria nomes próprios. Ou seja, a questão não seria ociosidade de uma linguagem com termos gerais, mas incapacidade de adquirí-la. ' O paralelo com o texto do Jônadas tá feito!) Eis o texto do Jônadas.

Ocorreu-me um paralelo inusitado entre o famoso "argumento do besouro na caixa" apresentado por Wittgenstein nas IF (#293) e o "argumento" (se é que se pode dar esse nome) tractariano segundo o qual o solipsismo levado às últimas conseqüências "coincide com o puro realismo" (TLP, #5.64).Vamos primeiro ao texto das IF:
Suponhamos que cada um de nós tivesse uma caixa com algo dentro dela: nós chamamos isso de um "besouro". Ninguém pode olhar dentro da caixa do outro; e cada um diz que sabe o que é um besouro apenas a partir da visão do seu besouro. --- Poderia ser que cada um tivesse algo diferente em sua caixa. Poderíamos mesmo imaginar que tal coisa se modificasse continuamente. --- Mas, e se a palavra "besouro" tivesse um uso para essas pessoas? --- Neste caso, não seria o de designar uma coisa. A coisa da caixa não pertence, de modo nenhum, ao jogo de linguagem nem mesmo como um algo: pois a caixa poderia também estar vazia. --- Não, pode-se 'abreviar' a coisa na caixa[*]; seja o que for, é suprimido. (IF, #293)Como é sabido, esse argumento visa demonstrar a vacuidade da teoria filosófica que interpreta a "gramática das expressões de sensação segundo o modelo de 'objeto e designação'". Mas não é isso que me importa salientar agora. Antes quero esboçar o paralelo entre a análise desse jogo de linguagem e a análise da "verdade do solipsismo" no TLP. A idéia é mais ou menos a seguinte: assim como a "coisa" na caixa seria irrelevante para o uso da palavra "besouro" no jogo acima, o "ponto de vista" do "eu metafísico" seria completamente irrelevante na descrição do mundo. É por isso que esse "eu" não constaria no livro O mundo tal como o encontro (TLP, 5.631). Mas é também por isso que "o solipsismo, levado às últimas conseqüências, coincide com o puro realismo"; levar o solipsismo às últimas conseqüências, como W. afirma na sequencia, implica que "o eu do solipsismo reduz-se a um ponto sem extensão e resta a realidade coordenada com ele". O que estou sugerindo é que devemos levar ao pé da letra a afirmação de que esse suposto "eu" vira um ponto sem extensão --- ele vira um nada, algo que podemos "abreviar", como a "coisa" na caixa.Na verdade o paralelo não parecerá tão inusitado se tivermos em mente o contexto do argumento de IF (#293): o sujeito com o besouro na caixa é cada um de nós, vistos do ponto de vista de um defensor da privacidade das sensações, e o "besouro" são justamente essas sensações, observáveis apenas do nosso próprio ponto de vista. Essa imagem da "privacidade" é uma das forças que impelem o filósofo em direção ao solipsismo. Pode-se dizer que W. está fazendo em ambos os casos é "cortar o barato" do filósofo candidato a solipsista logo de saída: no caso do argumento das IF, mostrando que o que ele queria resgardar com seu modelo do 'objeto e designação' -- a "sensação privada" -- acaba sendo suprimido num (possível) contexto efetivo de uso da "notação" que ele propõe; no caso do TLP mostrando que isso que parecia tão bacana e importante -- a perspectiva privilegiada do sujeito metafísico -- não é na realidade prespectiva nenhuma.Mas se é assim, então o mesmo deve valer para o "mundo como totalidade limitada" que é apresentado ao final do TLP como o objeto de contemplação mística do "eu metafísico" (cf. TLP 6.431 e seguintes). Ou seja, o uso da palavra "mundo" nessas proposições deve ser tomado como análogo ao da palavra "besouro" no argumento das IF . Seja qual for esse uso, ele não designa nada.
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[*] Nota referente à tradução: tanto a edição brasileira da coleção Pensadores quanto a da Vozes tornam essa frasesem-sentido. Ambas adotam "abreviar" como tradução de "gekürzt werden" -- que na tradução de Anscombe ficou "divide through". Não há problemas com a escolha desse termo, contanto que se compreenda o que ele quer dizer no contexto: podemos "atalhar", esquecer a coisa na caixa. Mas as construções frasais de ambas as edições citadas obscurecem (para dizer o mínimo) esse sentido. Na dos Pensadores lemos: "Não, por meio desta coisa na caixa, pode-se 'abreviar'"; já na da Vozes lemos: "Não, pode-se 'abreviar' por meio desta coisa na caixa".

Friday, January 26, 2007



Heráclito

No fragmento 53, descobrimos que a guerra é a origem (ou o pai) de todas as coisas.

Tuesday, January 16, 2007


Notícias lá do Theoreme. O segundo Congresso sobre Lógica Universal parece muito bom.

http://www.theoreme.blogspot.com

En août 2007 deux colloques internationaux se succèderont en Chine. Le premier est le 13th International Congress of Logic Methodology and Philosophy of Science, qui se tiendra à Pékin du 9 au 15 août. Les exposés soumis doivent être calibrés pour une intervention de 15-20 min.Deadline pour les soumissions électroniques : 10 mars 2007.Puis le 2nd World Congress and School on Universal Logic se tiendra à Xi'an du 16 au 22 août. Une école est organisée du 16 au 19, puis le congrès proprement dit se déroulera du 20 au 22. Deadline pour les contributions (abstract de deux pages) : 15 mars 2007.

Diáspora e Memória

Do César, o seguinte texto muito interessante:

Stuart Hall, no magnífico Da Diáspora, faz algumas observações que, na minha opinião, aproximam os conceitos de diáspora e de memória. Anotei sobre isso, tirando as conclusões que Hall, a meu ver, tiraria:

Em um mundo de diásporas, aquele que faz a viagem de volta às próprias origens culturais encontra algo estranho e irreconhecível no seu destino.Não há caminho de volta, não há para onde voltar. Só há hibridismo cultural. A origem específica de cada um só se manifesta como elemento da mistura cultural.

Vejo o caso da diáspora como uma variedade de um conjunto de problemas que me ocupam, e que agrupo sob o generoso nome de "memória" (a palavra é sistemática e radicalmente equívoca).Estar na diáspora é estar em uma terra que não é a sua, sem ter mais um lar para o qual voltar, pois sua terra, seu lar, mudou, e já não corresponde às suas memórias.Outra variedade do problema é a incomensurabilidade entre vocabulários científicos de diferentes épocas ou regiões. Aquele que lê Aristóteles tratando o movimento (por exemplo) tal como o vemos hoje chega a um texto anômalo. É também o que ocorreu quando empiristas do século 20 começaram a ler Descartes segundo suas compreensões próprias de "mente", "corpo", "percepção" etc. Chegaram a um filósofo muito tolo (que não era Descartes, obviamente).E outra variedade, mais básica, talvez, diz respeito ao caráter reconstrutivo tanto da memória psicológica quanto da memória social. Lembrar é interpretar, e costumamos interpretar, sem nem perceber, através das categorias do presente, não das categorias do passado.

Saturday, January 13, 2007


Rip van Winkle

...e tem aquele conto magnífico de Washington Irving, “Rip van Winkle”, que narra uma espécie de odisséia – a odisséia paroquiana de Rip van Winkle. Rip van Winkle, que não muito confortavelmente adormece por cerca de vinte anos depois de uma pequena jornada e de uma bebedeira fantástica, e que acredita que tudo não passou de uma noite apenas, retorna para sua aldeia e a encontra tão modificada que chega a suspeitar – é verdade que por pouco tempo – até mesmo da sua identidade. Suas lembranças são as mesmas que as de lembranças de vinte anos atrás, mas seu mundo mudou tanto que ele reconhece poucas coisas de sua pacata aldeia de outrora. Tampouco seus mais novos concidadãos o reconhecem. Para sua sorte, os mais velhos o reconhecem como o van Winkle de sempre em sua habitual bonomia, e o desfecho não poderia ser melhor para ele, uma vez que não se encontra mais entre os vivos sua autoritária esposa.
O conto de Irving é um daqueles contos que estão a serviço da melhor literatura. Ele está também a serviço da melhor filosofia: David Kaplan, Gareth Evans e John Perry, pelo menos, souberam aproveitar sua riqueza.

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