
Das aflições do corpo e da alma
O César lembrou-me de parte da seguinte passagem de A Gaia Ciência (SP: Cia. das Letras, 2001; trad. de Paulo César de Souza ) :
Conhecimento da aflição:- Talvez nada diferencie tanto os homens e as épocas como o grau diverso de conhecimento que eles têm da aflição, tanto da alma como do corpo. No que toca a essa última, talvez sejamos todos nós, modernos, apesar de nossas enfermidades, ignorantes e fantasiadores ao mesmo tempo, por falta de uma rica experiência própria - em comparação a uma era de temor - a mais longa das eras -, em que o indivíduo tinha de se proteger da violência e, em nome desse objetivo, era obrigado a tornar-se ele próprio um ser violento. Naquele tempo, um homem perfazia um rico treino em privações e tormentos físicos, e compreendia até mesmo uma certa crueldade consigo, um deliberado excercício da dor, como recurso necessário da sua preservação [...]. No que toca à aflição da alma, porém, observo agora em cada um se ele a conhece por experiência ou por descrição; se acha necessário fingir tal conhecimento, como indício de refinada formação, digamos, ou se no fundo de sua alma ele não acredita em grandes dores d'alma e lhe sucede, ao ouvi-las mencionadas, o mesmo que quando lhe relatam grandes padecimentos físicos: ocasião em que se lembra de suas dores de dente e de estômago. (#48, pp. 88-89. Enfatizei a passagem enviada pelo César.)
Dizer alguma coisa com segurança a respeito de qualquer coisa que Nietzsche disse é bastante difícil para um não especialista que está engatinhando em filosofia. Obviamente, a passagem enfatizada sugere uma aproximação entre conhecimento por Familiaridade e conhecimento por descrição, uma distinção que Russell incorpora à sua teoria do conhecimento. (Suponho que o César tenha enviado a passagem também por essa razão.) No caso de Russell, poderíamos dizer com alguma segurança que a distinção vale tanto para o corpo quanto para alma. Claro, na fase não dualista de Russell a distinção valeria para uma substância neutra entre o mental e o físico. Eu disse 'com alguma segurança'. Pois se é verdade que Russell pelo menos até "On Denoting" mostrava-se bastante confiante a respeito do conhecimento que tinha de si mesmo - que envolvia um conhecimento de suas aflições - e confiante que outras pessoas poderiam ter de si mesmas um conhecimento irredutível à descrições, todavia não vejo essa mesma confiança em outras obras suas (p. ex., em The Problems of Philosophy). Mas isso é o Russell, eu acho. E o Nietzsche?
O que mais me saltou aos olhos, numa primeira leitura da passagem toda, é a facilidade com que Nietzsche, para alguém que até então eu tinha na conta do mais ferrenho opositor de Descartes, separa as "dores da alma das dores do corpo". Eu não sei se ele poderia. Mas a passagem talvez possa ser lida de maneira diferente dessa minha primeira leitura - como contendo uma crítica a essa distinção. Na minha opinião, isso se ajustaria melhor a um crítico de Descartes. Apoio-me, assim, num especialista. Arthur C. Danto, em Nietzsche as Philosopher - An Original Study (NY: Columbia University Press, 1980), nos diz:
Descartes... was hardly immune to pressures which he was perhaps unable even to acknowledge as operative in himself; and the self which he claimned to have discovered as his essence was no less a shadow cast by moral attitudes than the atom was a (perhaps unwitting) posit set down by grammatical coercion. Indeeed, the two concepts are reflections of each other. [...] What is the self but a dematerialized atom? The belif in the permanence and indestructibility of the self (or soul) is simply "psychic atomism - that fateful atomism best and longest taught by Christianity" [1]. If things are fictions, mental entities are no less so; if the belif in material substance is misguided, the belif in mental substance is no less errouneous. "Matter is exactly the same sort of error as the god of the Eleatics", Nietzsche writes in one place [2] ... .[...] it is more or less Nietzsche's predictable view that distinctions between inner and outer, between matter and mind, and comparable polarities, come to nothing; and that, being logically correlative with one another, any attempt to deny the reality of one pole at the expense of the other is meaningless. One must accept either both or neither of these antithesis; and Nietzsche always presses for neither, virtually as though it were his methodological directive to abolish distinctions whenever found. Whatever description he will finally give of reality as he sees it, it will at least have to be neutral to any of distinctions we are accustomed to draw. (p. 105)
O diagnóstico todo pode estar correto. Entretanto, me pergunto se o remédio nietzschiano é o mais apropriado. 'Bem, a receita para "a aflição" é: aflição.' (A Gaia Ciência, op. cit., p. 90). Claro, talvez seja possível distinguir espécies de aflições ou de sofrimentos - como interpreta Danto - e então sustentar que eles fazem parte de nossa história natural e cultural, e sustentar que isso seria algo bem diferente de sustentar que se possa gratuitamente impor aos outros - incluindo animais de outras espécies - aflições ou sofrimentos. Mas eu não sei se essa leitura não faria de Nietzsche meu moralista favorito.
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Duas notas:
[1] Cf. Nietzsche, Além do Bem e do Mal (SP: Cia. das Letras, 2002; trad. de Paulo César de Souza): '... é preciso inicialmente liquidar aquele outro e mais funesto atomismo, que o cristianismo ensinou melhor e por mais longo tempo, o atomismo da alma.' (#12, p. 19)
[2] Cf. Nietzsche, A Gaia Ciência (op. cit.): 'Não há substâncias que duram eternamente; a matéria é um erro tal como o deus dos eleatas.' ( #109, p. 136)