Tuesday, August 28, 2007


Um pouco sobre a concepção de lógica do Russell

Estou para dizer isso a um tempo. Têm algumas coisas que gosto muito, e outras que gosto menos, no artigo do Kripke, “Russell’s Notion of Scope” (na Mind de 2005, comemorando os 100 anos de “On Denoting”). O que gosto mesmo é que ele se afasta da cantilena do timão que inclui nada menos do que Burton Dreben, J. van Heijenoort, Warren Goldfarb, Thomas Ricketts, Peter Hylton e outros. A exemplo de outros comentadores de Russell, como Gregory Landini e Ian Proops, Kripke é categórico na negação de que Russell não tem, ou não poderia ter, uma “metaperspectiva” para abordar a sua lógica. Melhor ainda é que Kripke relaciona esse ponto com Principia Mathematica *14! Eis uma passagem legal:

A whole school of writers has emerged who state that Principia does not contain metatheorems, a school that includes Dreben, van Heijenoort and Goldfarb. The assertions following and preceding *14.3 are an explicit counterexample to their claim, though there are many others, and this is not even the most important counterexample. It is an explicit metatheorem that in a truth-functional context the scope of a single description does not matter. (pp.1013-14)

Wednesday, August 22, 2007


Lendo Paradox and Platitude in Wittgenstein's Philosophy, do D. Pears (Oxford: Clarendon Press, 2006)

Pelo início, promete. Trata-se de alguém que conhece um bocado as filosofias de Wittgenstein e de Russell.


If an anthropologist from outer space visited our planet in order to write an account of our lives, the activity that probably give him most trouble would be philosophy. Does it explore the world like science, but in a deeper and more general way?Or does it only examine our own thinking about the world? And why is the object onto which it is most sharply focused so often only itsel?These questions are difficult enough to answer, but what the visitor would find even harder to understand is that never get final answer. The history of philosophy reveals a pattern, but it is a pattern of oscillation between two very different endeavours: expansive exploration and anxious self-criticism. Philosophy, we could tell our visitor, is like a pulsar. Wittgenstein's work belongs to critical phase in the history of subject, Kant inaugurated another, earlier critical phase, and Socrates' shrewd dismantling of the received ideas of his contemporaries is our earliest example of thie kind of philosophy. (p.viii)


Monday, August 20, 2007


Balthazar B. Filho

Eu ainda era um estudante das Ciências Sociais da UFRGS e freqüentava com certa perplexidade e curiosidade uma ou outra cadeira opcional da Filosofia. Uma delas certa vez despertou-me o interesse, sobretudo pela fama do professor. Falava-se que seus cursos, que em geral começavam com uns trinta alunos, também da História e do Direito, costumavam terminar com uns cinco ou seis alunos que, se passavam, passavam raspando. Tratava-se do professor Balthazar. A certa altura do curso - que nunca começava depois das 13:30, em ponto - , acho que denominado “História da Filosofia Contemporânea”, tentando elucidar para nós o aforismo 2.0211 do Tractactus (‘Se o mundo não tivesse substância, ter ou não sentido uma proposição dependeria de ser ou não verdadeira uma outra proposição’) o professor Balthazar, depois de escrever no quadro:

O rei da França é calvo

perguntou-me: “Você, aí, isso é verdadeiro ou falso?”. Eu já tinha lido parte de “On Denoting” (na tradução dos Pensadores, obviamente, e pulando oito dos seus parágrafos), e lido um livro do T. M. Simpson (por indicação do próprio Balthazar) em que a teoria das descrições definidas do Russell era exposta. Minha resposta foi imediata, embora lembre de ter gaguejado: “É falso.” O professor Balthazar, imprimindo mais calma a sua voz, perguntou: “Então quer dizer que o rei da França é cabeludo?”. Mais gago ainda tentei explicar o que eu tinha entendido da análise do Russell. O Balthazar então tratou de nos explicar em que consistia a análise do Russell, e uma possível conexão com 2.0211. Na seqüência, ele acrescentou mais ou menos o seguinte: “Olha, aquilo no quadro é um exemplo, e por si só não é nem verdadeiro nem falso. Conforme o uso que se faça de uma sentença, em que pressupomos que exista um rei da França, aí sim podemos dizer que se trata de um enunciado verdadeiro ou falso”. Pouco tempo depois, eu ficaria sabendo que o professor Balthazar havia traduzido para a coleção dos Pensadores um artigo talvez tão importante quanto “On Denoting”, o artigo do Strawson, “On Referring”.
Claro, a minha memória pode estar pregando alguma peça (talvez fruto, também, da minha tristeza). Acho que foi mais ou menos assim, mas pode ser que isso tenha ocorrido em algum dos seus outros cursos – um curso sobre Descartes, ou sobre Leibniz, ou sobre Hobbes, ou sobre Kant ou sobre Frege. Em todo caso, um curso com o Balthazar sobre algum tópico da filosofia de um filósofo, p.ex., do séc. XVII, não deixaria de ser uma oportunidade para ele nos apresentar um pouco de filosofia contemporânea, em particular, do que a gente chama “filosofia analítica”. Lembro também que certa vez ele nos apresentava o que alguns filósofos poderiam considerar como exemplos de nonsense, e um deles foi não sei que frase de Sartre. O exemplo arrancou um sorriso meu e de outro colega. O Baltazhar nos olhou com seriedade e fez questão de salientar que aquele exemplo não deveria motivar nenhum preconceito filosófico.
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Para mais lembranças do Balthazar, cf. os blogs do Alexandre, da Katarina e do César.

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