Monday, March 31, 2008



Três dicas

A Stanford tem um verbete novo sobre empatia:
O César deu a seguinte dica:
Eis mais uma: Philosophy and Animal Life ( Columbia University Press, 2008). Uma coletânea com gente como Stanley Cavell, Cora Diamond, John McDowell, Ian Hacking e Cary Wolfe.

Friday, March 28, 2008


Um Blog Legal
O Ôlho-Dínamo, do Marden, é um show, o que se escreve e as imagens.

Thursday, March 27, 2008


Animal Político (2)

Eu perguntava, na outra postagem sobre os movimentos de defesa dos animais, se as diferenças existentes entre eles deferiam incomodar quem se preocupa com o assunto. Continuando.
Gary Francione, um professor de filosofia e direito em NY (Rutgers), é um abolicionista. Convencido de que leis bem-estaristas têm antes o propósito de permitir a exploração de outros animais de maneira mais lucrativa, em uma entrevista na Revista dos Vegetarianos (n.16, 2008) ele dispara não apenas contra bem–estaristas. A bem dizer, ele dispara para todos os lados. Ele diz: ‘...as leis de bem-estar animal fazem com que as pessoas se sintam melhores ... em relação a exploração e isso encoraja o uso contínuo dos animais. Bem-estar animal não levará ao direito ou a abolição animal. [...] Bem-estar animal apenas leva a mais exploração animal.’( p.18)
Pode ser que Francione tenha uma “visão global” do assunto que lhe permita dizer o que diz. Mas diante de contra-exemplos diários eu gostaria que ele apresentasse alternativas mais práticas. Vou dar um exemplo do que aconteceu comigo. Existe uma raça de cães que se notabiliza belo comportamento dócil e educado, o vaimarana. Qualquer dono, com um pouco de inteligência, consegue adestrar um vaimarana. Acontece que um vizinho truculento que tenho não percebia isso e certa vez espancou sua vaimarana que, além disso, era explorada para dar cria aos montes para que ele pudesse vender os filhotes. Na ocasião do espancamento, ela havia tirado do varal uma camisa que ele iria usar. Para a infelicidade desse meu vizinho eu e outra vizinha presenciamos a cena e juntos pedimos providências para a nossa ágil BM. Claro que a situação não foi das mais agradáveis, mas se não existissem algumas leis que protegesse aquele animal provavelmente ele ainda estaria dependendo desse meu vizinho para viver ... e continuaria apanhando . (Com a gentileza que caracteriza qualquer brigadiano em se tratando de cavalos e cães, esse meu vizinho foi aconselhado a achar rapidinho um outro dono para sua vaimarana. E foi o que ele vez na hora: vendeu-a para minha vizinha.)
Francione não para por aí. Ele dispara, não sem certa razão, contra grupos que se mobilizam assumindo posturas no mínimo suspeitas. P. ex., a respeito da PETA ele diz que suas campanhas são, em geral, sexistas, e que enquanto mulheres ainda forem tratadas como “carne” dificilmente avançaremos no tratamento aos animais. Ele diz, falando da “obsessão da PETA por campanhas sexistas”: ‘Especismo é errado porque é como o racismo, sexismo e heterosexismo. Não deveríamos usar sexismo como uma maneira de aumentar a consciência das pessoas sobre o especismo.[...] Não acho que essas campanhas tiveram nenhum resultado positivo exceto a atenção da mídia para a PETA. Duvido que muitas pessoas pararam de explorar os animais por causa de uma demonstração de nudez da PETA.’ (p.19)
Mas onde eu acho que Francione exagera é quando ele investe contra Peter Singer. Eu não concordo com o utilitarismo de Singer (se é que atualmente ele ainda o defende), mas inegavelmente ele foi um dos poucos filósofos do século passado que chamou a atenção e contribui sim para despertar o debate em torno dessa questão. As palavras de Francione, assim, são exageradas e injustas: ‘Quanto a Singer, sejamos claros: ele é um utilitarista que não dá suporte aos direitos animais. Ele explicitamente repudia os direitos animais. Singer não considera a matança de animais um problema moral. A única coisa que importa é o sofrimento. Ele deixa claro que considera moralmente aceitável ser um onívoro consciente, ou seja, que come carne e laticínios que sejam produzidos de maneira “humanizada”. Noções de exploração “humanizada” é uma tolice tanto na prática quanto na teoria.”(p.19)
Novamente, Francione deve ter uma “visão global” do assunto que lhe permita a passar batido por problemas práticos diários. Eu acho que desse mal a posição do Singer não sofre.

Thursday, March 20, 2008

Molloy

'Certas questões de ordem teológica me preocupavam de maneira estranha. Aqui estão algumas delas.

1. Qual o valor da teoria que sustenta que Eva tenha saído, não da costela de Adão, mas de um tumor do gordo da perna (bunda?)?

2. A serpente se arrastava ou, como Comestor afirma, andava ereta?

3. Maria concebeu pela orelha, como queriam Santo Agostinho e Adobard?

4. O anticristo, quanto tempo ainda vai nos fazer ficar esperando?

5. Faz mesmo diferença com que mão se absterge o pódice?

6. O que pensar do juramento dos irlandeses proferido com a mão direita sobre relíquias de santos e a esquerda sobre o membro viril?

7. A natureza observa o sabá?

8. É verdade que os diabos não sofrem nada dos tormentos do inferno?

9. A teologia algébrica de Craig. O que pensar disso?

10. É verdade que São Roque, bebê, não queria mamar nem às quartas nem às sextas?

11. O que pensar da excomunhão da verminose no século XVI?

12. Deve-se aprovar o sapateiro italiano Lovat que, tendo se castrado, se crucificou?

13. O que é que Deus estava aprontando antes da criação?

14. A visão beatífica, não seria ela uma fonte de tédio, a longo prazo?

15. É verdade que o suplício de Judas é suspenso aos sábados?

16. E se se dissesse a missa dos mortos para os vivos?

E recitava para mim mesmo o bonito Pater quietista, Deus que não estais mais no céu que na terra e nos infernos, não quero nem desejo que vosso nome seja santificado, sabeis o que vos convém. Etc. O meio é o fim são muito bonitos. ' (Samuel Beckett, Molloy, SP: Ed. Globo, 2007, p.225-6)

Tuesday, March 18, 2008

A Questão Normativa

'Life preys on life: that is the system of nature', diz Christine M. Korsgaard em "Facing the Animal You Seee in the Mirror", sabendo que tal constatação pode servir para muitas propósitos, entre eles, deixar as coisas mais ou menos no pé em que estão no tratamento dispensado aos animais não-humanos (e dizer que é para isso mesmo que serve um tal constatação). Mas eu acho que não podemos descontextualizar simplesmente o que ela diz. O que ela faz em "Facing the Animal..." está em perfeito acordo com algo bem mais geral que ela diz em The Sources of Normativity (Cambridge: Cambridge University Press, 1996).

‘Why should I be moral? This is not …a misguided request for a demonstration that morality is in our interest (although that may be one answer to the question). It is a call for philosophy, the examination of life.’
‘When we seek a philosophical foundation for morality we are not looking merely for an explanation of moral practices. We are asking what justifies the claims that morality makes on us.’

Saturday, March 15, 2008


"O Paladino da Fé"
Mandaram-me um email perguntado por que raios Kierkegaard tinha sido mencionado na minha postagem sobre Deus. Uma breve resposta.
Foi refletindo a respeito de certa narrativa bíblica (eu diria que refletindo a um ponto em que dificilmente alguém poderia chegar, talvez só a reflexão de Derrida a respeito da mesma narrativa, em The Gift of Death), que Johannes de Silentio, em Fear and Trembling, por temer os resultados morais da ação ali narrada, não apenas daquela ação ali narrada, mas também e sobretudo, de tomá-la com um exemplar no domínio ético, foi então refletindo a respeito dessa narrativa, que ele coloca em questão a pretensão do conhecimento sobre Deus, e sustenta que no domínio das religiões reveladas, em particular, o cristianismo, deve-se estar preparado para o que chama “suspensão do ético”. Eu sinceramente não estou preparado, e por isso reafirmo que é mais fácil me transformarem em um racionalista a respeito da não existência de Deus do que, para repetir um dos meus exemplos morais favoritos, eu voltar a comer carne.
A narrativa em questão – o mandamento de Deus para que Abraão sacrificasse seu próprio filho – eu ouço desde pequeno. Na época simplesmente já não conseguia entendê-la como um “teste da fé”, que era essa a explicação que me davam. Hoje ela me deixa mais perplexo, mas eu acho que ela não é simplesmente um “teste da fé”. Ela me parece antes um teste da fé em certa religião que tantos testes de fé, alguns historicamente com resultados obscenos, exigiu e ainda exige dos seus fiéis.
Para mim, e usando as palavras de Kierkegaard em Concluding Unscientific Postscript, a fé constitui uma esfera por si mesma. Eu apenas acrescentaria que um conflito entre “fé” e “razão prática”, em um cenário como o seguinte, anunciado assim: “Pai tenta matar seu filho em nome de Deus”, felizmente tem soluções rápidas em algumas das sociedades existentes.

Friday, March 14, 2008


História Universal da Infâmia
Seguidamente estou falando de dietas mais ou menos adequadas moralmente. Segue trechos de uma matéria que me enviaram. (Saiu no Le Monde) A matéria não trata, entretanto, só de dietas. Envolve um país ou dois do continente que outrora os antropólogos e arqueólogos acreditavam ser o “berço da humanidade”, o ultra explorado pelo colonialismo e talvez até esquecido pelo capitalismo, o continente africano. Suas "elites" locais, já se sabe a um bom tempo, não são muito diferentes de outras elites. Mas eu acho que aqui elas se aprofundaram em alguns pontos.

Joseph Marzah, conhecido como Zigzag, não sabia ler nem escrever. Mas Zigzag com certeza sabia matar, e costumava fazê-lo por ordem de Charles Taylor, antigo líder de milícia rebelde eleito presidente da Libéria em 1997, e que agora está em julgamento pelo Tribunal Especial para Serra Leoa (SCSL) pelos crimes contra a humanidade que ele ordenou durante a guerra de Serra Leoa, entre 1999 e 2001.
Na quinta-feira, Zigzag, no passado o comandante de um dos esquadrões da morte que atuavam a serviço de Taylor, narrou no banco de testemunhas do julgamento de seu antigo chefe que o ex-presidente liberiano "nos dizia que podíamos até comer os brancos enviados ao país pelas Nações Unidas. Ele dizia que nós podíamos usá-los como se fossem porcos, e comê-los". E durante a guerra, acrescentou, a mesma sorte foi "prometida" aos inimigos do líder liberiano.
O advogado de Charles Taylor, Courtenay Griffith, perguntou a Zigzag se eles haviam cozinhado suas vítimas. A testemunha, que foi convocada a depor pela acusação, respondeu que "sim, participei disso".
Nova pergunta de Griffith: "E qual é a receita para cozinhar um ser humano?" Zigzag respondeu que "nós cortávamos suas gargantas, e em seguida removíamos a cabeça e os intestinos. Depois, cozinhávamos a carne em um caldeirão, e preparávamos nossa comida. Charles Taylor foi que nos disse. Ele disse que podíamos comê-los. Mas eu não conseguia comê-los crus. Fazíamos uma espécie de churrasco, com sal e pimenta."
Joseph Marzah confessou o assassinato de uma centena de pessoas, no curso de uma guerra deflagrada no final de 1989 na Libéria, e que posteriormente se estenderia ao território da vizinha Serra Leoa.
De acordo com seu testemunho, Charles Taylor planejava tomar o controle de "três, talvez quatro países": Libéria, Serra Leoa, Guiné e Costa do Marfim.
Diante do tribunal especial que conduz o julgamento em Haia, Holanda, o antigo chefe de Estado, detido em Monróvia em 2003, responde apenas pelos crimes cometidos na Serra Leoa. Marzah, pai de 24 filhos, exibe um rosto emaciado e acompanha de gestos seu relato sobre os horrores infligidos aos civis.
"Quando uma pessoa era executada, os intestinos dela eram usados como corda. A cabeça da pessoa era cortada e exibida em uma estaca no posto de controle. Os intestinos são longos. Às vezes, utilizávamos dois intestinos. A merda era removida e os intestinos eram amarrados para obter uma corda do comprimento necessário", ele explica.
"Como é que vocês executavam bebês?", perguntou Griffith. "Nós os arremessávamos contra um muro e depois jogávamos os cadáveres em um rio ou poço. Em seguida, relatávamos o que havíamos feito a Charles Taylor." O advogado pergunta se ele se considera sádico. "Eu obedecia meu chefe, Charles Taylor", responde Marzah.
As ordens do líder muitas vezes incluíam também a entrega de armas aos rebeldes da Frente Revolucionária Unida (RUF) de Serra Leoa, e o tráfico de diamantes.
"Em certas ocasiões, recebíamos as armas diretamente em White Flower, a residência presidencial de Taylor, ou as descarregávamos de um avião russo. Elas eram entregues diretamente à Serra Leoa."
Marzah reconhece as vítimas que matou e torturou naquele país, mas se defende alegando que não poderia ter agido de outra maneira, "porque eu tinha de proteger minha família e meus bens".
Os juízes recusaram o pedido de audição fechada para o testemunho dele, apesar de seus pedidos de proteção. Marzah não pode ser processado por seus crimes, porque o tribunal especial estabelecido pela ONU em 2002 só pode processar mandantes, e não cúmplices.
Na Libéria, porém, uma comissão de inquérito criada em 8 de janeiro de 2008 vai investigar e processar os responsáveis pelos crimes cometidos durante a guerra civil.

Essa matéria me levou a explorar novamente a História Universal da Infâmia, de J. L. Borges.

Thursday, March 13, 2008

De Deo

Muito bom quando se é chamado a dar algumas explicações a respeito das nossas crenças, sejam elas da espécie que for: perguntaram-me, em um comentário algumas postagens abaixo, se creio em Deus. Vou então ampliar um pouco a resposta que dei. Não vou me deter sobre a forma geral da crença, supondo que exista isso, vou dar apenas uma caracterização da crença que para mim se tornou natural assumir, e que é bem básica e não formal. Quando alguém diz que crê, pode estar querendo dizer duas coisas: i) que crê que certa proposição p (algo que é proposto) é verdadeiro ou ii) que crê que o que é designado por pelo menos um dos componentes da proposição existe. (Quando digo que creio que o rei da França é calvo, um das coisas que posso estar querendo dizer é que existe o rei da França. Entretanto, e para não ficar tão preso a certa maneira de interpretar o que dizem os outros, é possível que se esteja querendo dizer também que a existe a calvície, e que calha que a calvície é exemplificada pelo rei da França.)

Continuo mantendo o que disse (afinal, dois ou três dias não foram suficientes para mudar minha opinião). Eu acredito em Deus, embora brigue com Ele algumas vezes. Baseado em quê? Para mim, essa crença é difícil de ser justificada, e para alguns, tal crença assim mantida pode parecer irracional. Em certo sentido de "irracional", minha crença em Deus é mesmo irracional.
Além disso, tenho também um conjunto de crenças que defendo sem sequer cogitar se Deus existe ou não, p.ex., minha crença que não devemos comer carne e usar animais não humanos a nosso bel prazer. Se amanhã um gênio maligno me convencer de que Deus não existe, se esse gênio maligno for tão maligno que acabe por me converter em um racionalista a respeito da não existência de Deus -- me convencendo, p.ex, que toda maldade do mundo não tem explicação --, acredito que dificilmente por abandonar a crença em Deus eu abandonaria, de arrasto, aquela minha outra crença. Em outras palavras, minha crença em Deus não fundamenta uma boa parte das minhas outras crenças e tampouco me leva, em uma boa parte das vezes, a tomar decisões e agir. Claro, eu acredito que um dos atributos de Deus é a bondade, mas não é porque creio que Deus é bom que creio que tenho que ser bom (não na proporção divina, bem entendido).
A maioria de nós pretende ter justificações para suas crenças, e no caso em questão, para a crença na existência de Deus. Um exemplo clássico é Anselmo de Canterbury. Ele acreditava em Deus, e uma das maneiras que ele encontrou para justificar sua crença -- não a única maneira que encontrou para aceitá-la -- foi através de um famoso argumento, conhecido como argumento ontológico para existência de Deus. Outros filósofos e teólogos elaboraram outros argumentos para a existência de Deus, e acreditavam que estavam com isso justificando suas crenças na existência de Deus. Por outro lado, outros julgaram completamente desnecessárias tais provas -- pela via da razão, dos argumentos com premissas e conclusão --, e até mesmo alguns dos filósofos e teólogos que formularam alguns dos argumentos clássicos para existência de Deus (novamente, Anselmo é um exemplo) pensavam que podiam aceitar suas crenças em Deus também de outra maneira que não fosse somente pela via argumentativa. Seria o que se chama "crença sem razão". Para alguns filósofos e teólogos, então, a crença em Deus poderia estar baseada no que Pascal chamou (sabendo da aparência paradoxal da denominação) "razões do coração" -- talvez uma outra expressão dele para fé. Por isso filósofos e teólogos que pensam dessa maneira são chamados – por bem ou por mau – de fideístas. Para Pascal, que é considerado um fideísta (e um outro exemplo frequentemente citado é Kierkegaard), não podemos decidir pela razão, em todo caso, pela razão teórica, nem que Deus existe nem que Deus não existe. Mais ou menos nesse sentido que digo que minha crença em Deus é irracional.

Monday, March 10, 2008


Animal Político (1)

Quem pretende algum dia se tornar vegetariano (ou já é), não meramente por causa de sua própria vida, se constatar a existência de inúmeras correntes defendendo animais não humanos, deve ficar feliz com essa constatação? A princípio, não vejo razão para não ficar. Protecionistas, abolicionistas e bem-estaristas – para citar algumas dessas correntes – todos concordam que é intolerável o sofrimento que é imposto aos animais não humanos. Mas há alguns problemas que impedem que essee grupos se ponham de acordo sobre uma série de pontos. Vou dar alguns exemplos.

Em várias partes do mundo existem leis de proteção aos animais de estimação. No Reino Unido, p. ex., uma multinha em torno de 25 euros ou algumas semanas de prisão, visam coibir donos descuidados. Existe até mesmo um código especial para cães e gatos, que os protege contra crueldades e abandono, além de lhes dar direito, entre outras coisas, a uma alimentação apropriada para espécie e uma boa companhia da mesma espécie. Na Itália, se não me engano não apenas em Roma, algumas leis protegem até os peixinhos de estimação: não são permitidos aquários redondos que, acredita-se, cegam os peixes. Obviamente, esses países têm leis mais gerais de proteção aos animais. (Existe, é bom lembrar, uma Declaração Universal dos Direitos dos Animais aprovada pela UNESCO, em 1978. Contra ela vi um chef proclamar em um debate: ‘Todos os animais têm o direito de serem temperados com sal, alho, cebola, dentes de alho, vinho e ervas finas, além de poder escolher o forno, a grelha, o espeto ou a panela.’ )

Aqui no Brasil a situação não é muito diferente. No Rio Grande do Sul, p.ex., temos o Código Estadual de Proteção aos Animais (Lei Estadual 11915/03), que trata não apenas do cuidado com animais domésticos e de estimação, mas também da prática da vivissecção, abate, etc. Claro, não se proíbe a vivissecção, assim como não se proíbe o abate de animais (imaginem um gaudério sem seu suculento churrasco!), somente se exige que não seja muito dolorido: ‘Art. 16 - Todo frigorífico, matadouro e abatedouro no Estado do Rio Grande do Sul tem a obrigatoriedade do uso de métodos científicos e modernos de insensibilização, aplicados antes da sangria, por instrumentos de percussão mecânica, processamento químico, elétrico ou decorrentes do desenvolvimento tecnológico.’

A gente pode se perguntar, então, se não existe certa incoerência nessas práticas protecionistas e bem-estaristas que, segundo alguns, resultando de um utilitarismo, acabam por levar a perpetuar a situação intolerável em que vivem e morrem outros animais e ao que alguns chamam “onivorismo consciente". Não há nada de muito novo na exigência de coerência, em se tratando de um assunto como esse. (Pode-se exigir coerência para vários assuntos, incluindo coerência no tratamento que se deve dispensar aos outros animais.) Lá da Aurora (SP: CIA das Letras, 2004):
Animais domésticos e de estimação. – Existe algo mais repugnante do que o sentimentalismo para com plantas e animais, por parte de uma criatura que desde o início habitou entre eles como o mais feroz inimigo e que termina por reivindicar afeição de suas vítimas debilitadas e mutiladas? Ante essa espécie de “natureza” convém ao homem sobretudo seriedade, se é alguém que pensa. (286, p.182-3)

A gente pode suspeitar da verdade arqueológica, antropológica e biológica (e até mesmo bíblica) do que Nietzsche está dizendo. Mas existe algo no mínimo curioso no comportamento de quem dispensa e exige tanta atenção para os seus pets e parece desconhecer a maneira como são tratados porcos, vacas, etc. (Porcos -- que, a propósito, são animais naturalmente higiênicos, em grande parte seus donos é que são “porcos” -- que agora em algum estado dos EUA virou animal de estimação, podem dormir um pouco mais tranqüilos.) Por isso, alguns defendem que o que se deve fazer é, antes, abolir de vez a prática de tratar animais não humanos como propriedade. Além disso, para quem pensa assim, ser um vegetariano genuíno é ser um vegano, alguém que não se alimenta de nada que derive de animais. (Obviamente que não se deverá usar nada que derive de animais.) Apenas para dar um exemplo. A maneira como vivem animais que são usados para a produção de leite e queijo não é muito diferente da maneira como vivem os que se destinam para o abate; em alguns casos, a situação é até pior, sem contar que também são abatidos depois do seu “tempo de vida útil”. (As pobres das galinhas então nem se fala.)

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