Friday, January 09, 2009


Amor ao Próximo, Amor ao Estrangeiro, e Outras Coisas

Em ano que começou exibindo um dos traços da nossa humanidade (não adianta, ninguém me convencerá – nem as imagens do Animal Planet vis-à-vis as que a cada minuto espocam por aí envolvendo judeus e palestinos -- que na guerra, na matança, na crueldade, etc., nos aproximamos de outros animais), algumas passagens da Bíblia de Jerusalém dificilmente servirão para qualquer coisa que não seja uma ou outra reflexão. Em Levítico 19, em que se trata de algumas prescrições morais, quase podemos ouvir, como um trovão e sem ternura, as palavras -- ou talvez PALAVRAS -- de amor ao próximo e de amor ao estrangeiro. Elas se dirigem a ninguém menos do que Moisés.

Iaheweh falou a Moisés e disse: "Fala a toda a comunidade dos israelitas. Tu lhes dirás: [...] Não terás ódio pelo teu irmão. Deves repreender o teu compatriota e, assim, não terás a culpa do pecado. Não te vingarás e não guardarás rancor contra os filhos do teu povo. Amarás o teu próximo como a ti mesmo.[...]Se um estrangeiro habita convosco na vossa terra, não o molestareis. O estrangeiro que habita convosco será para vós como um compatriota, e tu o amarás como a ti mesmo, pois fostes estrangeiros na terra do Egito".

Mas é claro, nesse mesmo conjunto de narrativas podemos encontrar passagens falando da ira de um único deus contra os inimigos do seu povo (mas também contra o seu povo). Eu não falaria de inconsistência, incoerência ou contradição nesse conjunto de narrativas. Seria fácil. Afinal, elas foram escritas por muitos e em diferentes momentos. Seria fácil, também, aqui e ali, ver traços de esquizofrenia.
Há um texto riquíssimo de Freud sobre as origens desse monoteísmo, que não me cansa nunca reler. Tem enorme valor literário e nem tudo ali foi invalidado por estudos históricos e antropológicos recentes. P.ex., quem contestaria que temas como ‘o pecado original e a redenção pelo sacrifício de uma vítima tornaram-se as pedras fundamentais’ de uma das religiões que se deriva desse monoteísmo?

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